domingo

Navego chão sobre meus pés-barcos.
Quem sorri a ventania quando a certeza da flor é o sol?
Desconfio: o magma da pulsão desnudou-me a palavra.
Os cabelos do tempo roçam-me a pele.
Os segredos do fogo revelam os disfarces da alma.
Tenho sede insaciável de teu líquido.
Tenho sede insaciável...
Abri a porta e entrei.
Disse em voz alta como quem escreve uma carta,
ou escrevi uma carta como que diz em voz alta?
:
Meu amor,
o tempo anda arisco enquanto as andorinhas sobrevoam o mar. Não cabe nos ponteiros do relógio tua vida longe. Os orifícios do corpo pulsam tua presença. Uma rosa cálida, jamais calada, geme. Sussurra palavras, treme, encarna o despudor. Nenhum silêncio sobrevive a boca aberta e ávida. Nenhum ouvido ensurdece aos ruídos crepitantes do fogo. Querer não é verbo, é linguagem dos sentidos. É mais que o amarelo do sol. O deserto sabe mais do calor que os termômetros. Para que medir em números o inefável do corpo?
O silêncio antecede o grito.
A palavra escancara a boca.
Os lábios murmuram o fogo do amor.
O coração pulsa em todos os órgãos.
As vísceras desabrocham o tempo da flor.
O perfume estremece as paredes do quarto.
As janelas exalam os prazeres do corpo.
Homem e mulher relembram a memória da alma.
O vento acalma as delícias do prazer...

a nudez

O poema é como a nudez.
Quanto mais falo mais perco o juízo.
A palavra escabela os sentidos.
O silêncio devora-me pela metade.
Perco a cabeça na boca sedenta da ave.
Minha língua sabe mais que eu o que é bom.
A verdade do amor cabe melhor na invenção.
Os poetas nunca mentem.