sábado

liberta em ventanias plenas

Ao deitar-me nessa réstia de verão,
minhas mãos descansam em meu púbis,
quietas. O colchão sabe melhor que ninguém:
Cecília Munõz sobre mim.
Vestida de pensamentos efervescentes,
ela se humaniza no passo a passo da espera,
à medida exata de caber-me.
Sou a iminência do atiçar fogo,
a paz conquistada no disparo do verbo.
Desdigo-me da mea culpa.
Estou liberta em ventanias plenas.

sexta-feira

o rio da minha aldeia

Ontem eu era todas as palavras não ditas.
Agora sou esta varanda imensa.
De minhas janelas vê-se o rio,
poderia ser o Tejo mas é o Upaperi.
Meus parapeitos ornados de confiança e imburana,
me dão ares de anfitriã e eu saboreio isso.
Gosto do papel de guiar os que chegam,
desdobrar os tapetes, acolchoar os descansos,
e ser a noite inteira regozijo.
Dizem que sou a seresta das noites do sertão
e eu que nada modesta, concordo...

Nuamente Cecília Munõz

Para saber de tardes em outros lençóis
imaginava-se nuamente Cecília Munõz.
Não era de pensar nuvens ou sobrevoar estrelas.
Era uma mulher-remanso para além do sol poente.
Imaginava-se mão e útero, serpente e abrigo,
matéria e espera, terreiro de orixás.
E mesmo em dias que não havia calor
seus poros eliminavam magma.
Seus seios, olhos a fitar as ruas.
Seus olhos, faróis em alto mar.
Aquela mulher era o chão de Estella.

água-pé


O que te cabe dentro esvoaça o nu
daquele que te olha de outras terras.
O choque inevitável desce das esferas,
para compor réstias de luz e misturas solenes.
No Alentejo diz-se água-pé.



Para Pedro S. Martins

quinta-feira

simples

Deus pra mim é chiclete!
Faço uma bola:
Deus explode
e vira ar.
Eu o respiro.
Amar o abstrato é extrair o sólido das marés..

medite sobre majestade

Ser mulher é assim:
colher navios de um índigo-blue
onde nem sequer há cais.
Outrossim é saber de véspera
o amanhecido imaginado nunca visto.
Mulher é saber correr risco
no amor que ama no dentro do peito.
Ela tem jeito de alvorecer e tempestade,
e mais ainda, que cabe e pode caber
quando é e deve ser.
Mulher é não conter a chama acesa,
faiscar palavras e ganhar o jogo.
O tabuleiro é ela com ela mesma.
É mais que arte ser mulher.

fruto proibido

Amanheci maçã saborosa.
E tu com a fome dos famintos-
teu apetite-cão,
veio devorar-me a carne.
Transformei-me em serelepe
e corri léguas
até alcançar os campos do sul.
Esticaste a mão
e puxou-me as orelhas.
Olhei de esguelha.
Mais que depressa
borboleteei
e esvoacei por entre os dedos teus.
Então jogaste a rede
e pegou-me novamente.
Encantou-me com palavras mágicas:
Pater ejus est Sol!
Criou a mulher que serei.