domingo

papel-corpo

Menos silêncio houvesse e seria a culminância da obra. Mas não: são as voltas. Como me tornar mais humana? Como provocar as chamas incisivas da fala? O amor é mais largo que a morte. O tempo não dissolve palavras escritas em cartas. Por isso escrevo, para fazer do tempo uma espécie de abraço enorme. O conforto é usar vírgulas no lugar de ausências. O corpo sabe dos lugares das páginas. Quando foi que nossas letras entrelaçaram os pés? Sempre sei a próxima frase, mesmo quando a boca é outro nome, e o nome a presença aguda da falta . Não é poesia o que escrevo e me permanaces a alargar as ruas, as vias, as praças. Porvir é pássaro livre. Voar é epifania. Na imaginação o amor acende o sol, a distância o desejo. Querer perto e beijo é oásis no deserto? O rio da vida deságua em mar aberto... O ponto final não aprisiona o tempo da história. Papel e pele guardam a memória do imponderável. As linhas não contém a língua. A língua escreve em papel-corpo o pergaminho do fogo.

Navego chão sobre meus pés-barcos.
Quem sorri a ventania quando a certeza da flor é o sol?
Desconfio: o magma da pulsão desnudou-me a palavra.
Os cabelos do tempo roçam-me a pele.
Os segredos do fogo revelam os disfarces da alma.
Tenho sede insaciável de teu líquido.
Tenho sede insaciável...
Abri a porta e entrei.
Disse em voz alta como quem escreve uma carta,
ou escrevi uma carta como que diz em voz alta?
:
Meu amor,
o tempo anda arisco enquanto as andorinhas sobrevoam o mar. Não cabe nos ponteiros do relógio tua vida longe. Os orifícios do corpo pulsam tua presença. Uma rosa cálida, jamais calada, geme. Sussurra palavras, treme, encarna o despudor. Nenhum silêncio sobrevive a boca aberta e ávida. Nenhum ouvido ensurdece aos ruídos crepitantes do fogo. Querer não é verbo, é linguagem dos sentidos. É mais que o amarelo do sol. O deserto sabe mais do calor que os termômetros. Para que medir em números o inefável do corpo?
O silêncio antecede o grito.
A palavra escancara a boca.
Os lábios murmuram o fogo do amor.
O coração pulsa em todos os órgãos.
As vísceras desabrocham o tempo da flor.
O perfume estremece as paredes do quarto.
As janelas exalam os prazeres do corpo.
Homem e mulher relembram a memória da alma.
O vento acalma as delícias do prazer...

a nudez

O poema é como a nudez.
Quanto mais falo mais perco o juízo.
A palavra escabela os sentidos.
O silêncio devora-me pela metade.
Perco a cabeça na boca sedenta da ave.
Minha língua sabe mais que eu o que é bom.
A verdade do amor cabe melhor na invenção.
Os poetas nunca mentem.

sexta-feira

madrigal

Chuva, sol, peso, quantidade,tempo.
Nada pode conter os espamos.
Agora a sombra adormece:
clareio o medo.
vísceras quentes
carne exposta
indubitável êxito.
Estella no espelho diz a si mesma:
- inspiro madrigais!

sábado

amor inevitável amor

De não haver figura que se estampe às letras:
resta-me apenas o flerte com a imaginação.
Silvo poema, banho-me nêsperas.
Não há quem se aquiete nas tempestades do tempo.
Despir-me de toda gente
é renascer destino rédeas.
Alongar tentáculos e extravasar o poema contido.
A língua é aquela que fala
a mão que acaricia
o outro que invade a casa
e já sei de outroras o imemorável.
O amor é tudo aquilo que posso.
Sei que posso mais...

quarta-feira

mar de sangue

Para singrar o mar parece grande
Para sangrar, ele é pequeno...

domingo

cidade vazia

Eis que caio em mim: cidade vazia.
Vazia e sem temporais.
O banco de praça vazio,
poste, casas, lua,
vida na cidade, tudo:
sou eu mesma.
Daqui até lá,
horizonte e vastidão.
Cidade em nome do amor.
Parece que sou espera...

a insônia

Rios me rasgam sóis.
grutas gritam-me: goza!
aguardo o trotar do trovador
nas vastas planíceis - o interim da rosa.
O tempo é o descompasso do amor,
O amor: afago ardente na alma.
Quem dorme com o corpo a uivar?
Como calar a voz da carne?
Abasteça-me com tua ânisa ávida!
Sou feita de pedra vulcânica,
tua escultura cálida.

sábado

liberta em ventanias plenas

Ao deitar-me nessa réstia de verão,
minhas mãos descansam em meu púbis,
quietas. O colchão sabe melhor que ninguém:
Cecília Munõz sobre mim.
Vestida de pensamentos efervescentes,
ela se humaniza no passo a passo da espera,
à medida exata de caber-me.
Sou a iminência do atiçar fogo,
a paz conquistada no disparo do verbo.
Desdigo-me da mea culpa.
Estou liberta em ventanias plenas.

sexta-feira

o rio da minha aldeia

Ontem eu era todas as palavras não ditas.
Agora sou esta varanda imensa.
De minhas janelas vê-se o rio,
poderia ser o Tejo mas é o Upaperi.
Meus parapeitos ornados de confiança e imburana,
me dão ares de anfitriã e eu saboreio isso.
Gosto do papel de guiar os que chegam,
desdobrar os tapetes, acolchoar os descansos,
e ser a noite inteira regozijo.
Dizem que sou a seresta das noites do sertão
e eu que nada modesta, concordo...

Nuamente Cecília Munõz

Para saber de tardes em outros lençóis
imaginava-se nuamente Cecília Munõz.
Não era de pensar nuvens ou sobrevoar estrelas.
Era uma mulher-remanso para além do sol poente.
Imaginava-se mão e útero, serpente e abrigo,
matéria e espera, terreiro de orixás.
E mesmo em dias que não havia calor
seus poros eliminavam magma.
Seus seios, olhos a fitar as ruas.
Seus olhos, faróis em alto mar.
Aquela mulher era o chão de Estella.

água-pé


O que te cabe dentro esvoaça o nu
daquele que te olha de outras terras.
O choque inevitável desce das esferas,
para compor réstias de luz e misturas solenes.
No Alentejo diz-se água-pé.



Para Pedro S. Martins

quinta-feira

simples

Deus pra mim é chiclete!
Faço uma bola:
Deus explode
e vira ar.
Eu o respiro.
Amar o abstrato é extrair o sólido das marés..

medite sobre majestade

Ser mulher é assim:
colher navios de um índigo-blue
onde nem sequer há cais.
Outrossim é saber de véspera
o amanhecido imaginado nunca visto.
Mulher é saber correr risco
no amor que ama no dentro do peito.
Ela tem jeito de alvorecer e tempestade,
e mais ainda, que cabe e pode caber
quando é e deve ser.
Mulher é não conter a chama acesa,
faiscar palavras e ganhar o jogo.
O tabuleiro é ela com ela mesma.
É mais que arte ser mulher.

fruto proibido

Amanheci maçã saborosa.
E tu com a fome dos famintos-
teu apetite-cão,
veio devorar-me a carne.
Transformei-me em serelepe
e corri léguas
até alcançar os campos do sul.
Esticaste a mão
e puxou-me as orelhas.
Olhei de esguelha.
Mais que depressa
borboleteei
e esvoacei por entre os dedos teus.
Então jogaste a rede
e pegou-me novamente.
Encantou-me com palavras mágicas:
Pater ejus est Sol!
Criou a mulher que serei.